Assistia a um documentário sobre a história do cinema. Comentavam a rápida evolução tecnológica, desde a fotografia muda em branco e preto até a chegada do som e, finalmente, o luminoso e realista tecnicolor... Flora, na sua história pessoal, transitou por um caminho inverso, casou-se feliz e apaixonada, como um bom filme colorido. Porém, o tempo e a falta de novidades fizeram com que sua vida conjugal fosse perdendo o brilho e o som, até se transformar em um filme mudo, em preto e branco...
Foi nessa hora que Tony apareceu, despertando nela uma nova paixão, novo filme colorido no qual recuperou esperanças e melodias. Não durou muito, em rápido desgaste, Tony deixou de ser príncipe para se transformar numa carga, sonho transformado em pesadelo, principalmente quando o jovem e desastrado amante começou a cobrar as promessas da Flora. O rapaz não percebeu que o filme em cartaz era outro. Agora Flora pretendia retomar a plácida felicidade conjugal. É nesse contexto que, em sua carta, nos pergunta como terminar com o Tony, sem feridas nem escândalos.
Não acredito que este seja seu maior problema. Tenho certeza de que, como qualquer mulher, sabe perfeitamente como terminar um caso, o que ignora e precisa saber é a razão pela qual suas paixões passam do tecnicolor ao preto e branco e do som estereofônico ao cinema mudo. Se não esclarecer essa questão, é provável que continue circulando uma e outra vez pelo mesmo circuito com desfecho idêntico.
Precisamos questionar seus métodos e identificar seus erros. O primeiro equívoco consiste em acreditar que a felicidade é uma graça que se recebe de um homem. Não é verdade. Primeiro seu marido a fez feliz, depois foi Tony, mais tarde, outra vez seu marido... Não percebe que a protagonista destes processos de amor e desamor é uma mulher que só se sente feliz quando recebe, passivamente, a atenção de um homem. Esse é seu erro: os homens não dão felicidade, apenas a emprestam por um tempo limitado. Flora precisa achar seus próprios motivos para se sentir segura e feliz, quando estes sentimentos dependem de terceiros, são frágeis, não duram, rapidamente se apagam. Claro que um bom companheiro alegra e ajuda na vida, porém só se sustenta quando existem motivos próprios e pessoais de satisfação. O “homem” que Flora persegue nos seus parceiros, está dentro dela, no seu eventual esforço por fazer com que sua vida pessoal e/ou profissional seja mais criativa e prazerosa. Os homens só fazem felizes mulheres que já eram felizes antes de encontrá-los. É óbvio que bons encontros são essenciais para completar a felicidade de uma mulher, mas nunca para construí-la.
Paixão e decepção são os recursos que Flora utiliza para fugir da monotonia e dar sentido à sua vida. Se não modificar sua própria imagem e persistir em se considerar uma princesa à procura de um bom marido, será presa fácil de outros Tonys ou maridos. Devo lembrá-la de que só as mulheres felizes têm direito à felicidade.
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