| Coluna
de domingo, 13 de maio de 2012
"SEMPRE LEIO A
SUA COLUNA. AO MESMO TEMPO fico intrigada pelo
fato de que os temas são sempre de natureza
sexual, como se fosse à raiz de todas
as infelicidades do homem. Será?! Na
minha vida, fiz muitas coisas que não
foram motivadas pelo sexo, nem mesmo meu casamento...
Casei-me aos trinta anos, com Zé, um
colega, fazíamos bons programas, cinemas,
teatros, restaurantes... Nosso sexo às
vezes me provocava orgasmos, outras não,
nunca foi um problema. Com o tempo, as relações
foram se espaçando e sua ausência
não me ocasionou ciúmes, dúvidas,
nem desvalorização, como leio
em seus textos. Na verdade, nunca pensei sobre
isto! Agora, idosa e viúva, penso com
saudade e carinho no meu marido, saudade do
que fazíamos, e onde o sexo era insignificante..
Pouco sexo nunca me impediu de trabalhar, curtir
a vida, criar os filhos e ter boas amizades...
Entendo que é importante para dar continuidade
à espécie, e é muito gostosa...
Mas há outras coisas que também
dão prazer, passear, comprar vestidos,
bater papo, ler um bom livro etc. Gostaria saber
a sua opinião, inclusive se eu preciso
fazer uma psicanálise... Agradeço
com admiração
Dora"
|
NÃO
É UMA CARTA COMUM, É UM RESPEITOSO
convite à reflexão, uma crítica
velada, simpática e pertinente... A vida
de Dora foi plena e feliz, mesmo que a sexualidade
com Zé, seu marido já falecido,
não tenha tido um lugar tão especial
e privilegiado como sugerem minhas colunas...
É possível? Felizes “para
sempre”, família bem constituída,
sem acrobacias sexuais, ciúmes, traições,
desconfianças, amantes, taras ou compulsões.
Admito que foi uma vida possível e desejável,
porém, infelizmente, pouco frequente...
Tiveram um encontro carinhoso, sem ameaças
de incêndio, sem noites tórridas
de motel, nem confissões de corpos suados...
Dias calmos, saídas com amigos, sexo
tranquilo, abraços noturnos, apertados
e demorados... É isso normal?”Pergunta
Dora.
- “Claro que sim!”, respondo. Porém
observo, surpreso, que ela ainda não
descobriu o motivo secreto e milagroso do seu
sucesso: foi raro e feliz exemplo de simetria
amorosa. Uma Dora mais exigente, ou um Zé
mais entusiasta ou ciumento, ela frígida,
ele impotente ou ejaculador precoce, ou com
fantasias estranhas, dariam outra carta e, com
certeza, outra resposta. O sexo humano é
fabricado no começo da vida e suas preferências
são gravadas na pedra do inconsciente,
como as impressões digitais nos dedos
das mãos. Por isso algumas mulheres são
frígidas, outras erotizadas e homens
que só pensam em sexo, enquanto outros
ignoram sua existência. Reunimos no mesmo
baralho cartas com todas as diversidades, embaralhamos
bem e separamos as cartas em duplas aleatórias.
Uma rainha e um ás, um 4 de copas e um
valete, em fim, combinações infinitas.
É evidente que Dora foi premiada com
um companheiro que sonhou com alguém
como ela e ela, por sua vez, aceitou, satisfeita,
acompanhá-lo no mesmo ritmo e sequência.
Outra mulher, ou outro homem, montariam o clássico
quadrilátero de tensões, acordos,
paixões, traições e perdões.
O sucesso ou fracasso do casamento é
efeito colateral da diversidade humana, dramaticamente
diferente, apesar de incluir raras simetrias,
como a de Dora e Zé. É verdade
que se todos fossem assim, não haveria
cinema, teatro, romances, dramas ou brigas domésticas...
Nem 15 anos da; minha coluna no jornal, com
um detalhe, no fim da vida, muitos que viveram
angústias clandestinas, segredos e paixões
se questionam se foram felizes por terem renunciado
a opções mais calmas e aqueles
que optaram por vidas convencionais, se perguntam
se foi certo serem tão lineares e previsíveis.
Sem culpar, nem inocentar, cada um faz o que
pode, não necessariamente o que quer
e tenta obter o máximo de satisfação
com sua escolha. Exigidos por desejos sexuais
egoístas, necessidades sociais altruístas,
ambições e carências de
amor, prestígio e dinheiro, os seres
humanos, inclusive Dora e Zé, fizeram
o possível para ter uma vida com mais
acertos do que erros. A cada dia mais conscientes
de que existe uma limitada, porém importante
capacidade de manobra: um volante e dois pedais,
um de acelerador e outro de freio, que nem sempre
funcionam corretamente. Dora acertou, por isso
é um verdadeiro exemplo a ser seguido
por todos aqueles felizardos que se sintam em
condições de imitá-la.
|