Coluna de domingo, 23 de agosto de 2015


“MEU NOME É SILVIA, TENHO 24 ANOS. Meu relacionamento com Tony foi muito conturbado, cheio de idas e vindas, e depois de um tempo, muita desconfiança da parte dele. Achava que eu dava em cima dos amigos dele descaradamente, enquanto eu achava que ele não queria realmente estar em um relacionamento comigo: nunca queria sair, e o sexo já estava monótono. Numa festa a que fui sozinha, fiquei com um amigo que não via há tempos. Cheia de dúvidas, me consultei com uma amiga, e decidi não contar pra ele. Separamos por um tempo, voltamos, tudo às mil maravilhas, um novo recomeço. Minha “ miga" decidiu contar pra ele do beijo na festa, e ele surtou; nos separamos definitivamente, e não falamos há mais de um ano. Apesar da culpa e do sofrimento, sinto o afeto intacto. Deveria dar a história por encerrada, ou seguir meu coração, e ligar para ele? Sou uma masoquista? Por favor, me responda, sou sua leitura assídua, e essa dúvida está me torturando.

Silvia "

SILVIA DESCREVE CLARAMENTE OS ACONTECIMENTOS pelos quais sua relação com Tony passou e, sua leitura, me lembrou o método de um velho e sábio professor que propunha ouvir os sonhos e relatos dos pacientes como se fossem textos incompletos a os que faltan algumas palavras, frases ou, às vezes, páginas inteiras; apagadas pela repressão e que, quando decifradas e incorporadas ao texto, o completam revelando seu verdadeiro sentido. Decidi aplicar seu método. Silvia descreve sua relação como cheia de ‘idas e vindas’. Tudo começou em uma fase bastante monótona, salpicada com frequentes cenas de ciúmes nas quais Tony a acusava de ‘dar em cima’ dos seus amigos. Silvia negava, mas é possível que essas repetidas críticas absurdas e infundadas funcionassem como todos os ataques de ciúmes que, geralmente, não evitam traições, pelo contrário, as promovem. Foi o que aconteceu. Silvia, estava desanimada e, sozinha em uma festa, ‘ficou’ com um velho amigo, ‘obedecendo a ordem’ inconsciente do seu namorado ciumento. Esta seria a primeira página revelada. Silvia se arrependeu, sentiu culpa e confidenciou o episódio a uma amiga enquanto que Tony, sem saber do deslize e por causa do clima pesado do namoro, concordou em dar um breve tempo na relação. A separação durou pouco e logo reataram, dessa vez com entusiasmo renovado. Uma segunda página oculta revela que nas relações com controle excessivo e posse, as separações temporárias têm um efeito refrescante e renovador, e seus protagonistas acreditam que o recomeço será maravilhoso, mas esta sensação é temporária e a tendencia é que um novo ciclo de controle e ciúmes recomeçe. O motivo é que neste modelo de relação, o prazer não é estar junto à pessoa amada, mas retê-la para evitar que um terceiro ocupe seu lugar. Em seguida, ocorreu o episódio da ‘delação’ da ‘amiga-confidente’ que, como era esperado, confirma os ciúmes de Tony que agora pode dar nome ao seu rival fantasma. O que antes fora apenas um delírio, agora é real. O beijo de Silvia em seu amigo com quem ficou é considerado um pecado mortal e Tony, sem piscar, aplica a pena capital, ou seja, termina de modo irreversível a relação! A sequência de monotonia, ciúmes, ruptura parcial, engano e ruptura definitiva, com o acréscimo das páginas ocultas, nos permite responder à pergunta de Silvia: Ela sente saudades de Tony e deseja ligar e reencontrá-lo. É evidente que ela ainda o ama, mas esta iniciativa só será válida e oportuna se conseguir fazer com que a relação funcione na base de um amor real e não de uma entrega neurótica da propriedade do seu corpo submetido a controles e ciúmes. Silvia não deve confundir ser amada por um homem com ser sua prisioneira. O amor pressupõe confiança e liberdade; os ciúmes, por outro lado, fazem o contrário, criam desconfiança, aprisionamento e ameaça. O que Silvia precisa decidir é se seu ‘melhor’ Tony a ama de verdade ou se ele apenas precisa dela, embalsamada, como um belo troféu de caça para decorar uma parede de sua sala de jantar.