Coluna de domingo, 23 de novembro de 2014

"CHAMO-ME SANDRA, TENHO 23 ANOS, vida confortável, pais que apoiam, tudo certo. Namoro Ivan há 1 ano saímos de relacionamentos agressivos e conturbados, começamos a nos relacionar no final nas respectivas relações, que eram doentias, só conseguimos terminar porque estávamos juntos, nos dando forças. Ele com uma longa relação, eu cheia de ciúmes e brigas. Passados os traumas, desenvolvemos uma carinhosa relação, nunca apaixonados, mas nos amamos, somos companheiros, sem ciúmes. E aí o problema: não me sinto atraída sexualmente por ele, com meu ex vivi uma relação obsessiva, agressiva e insegura, diferente com Ivan, somos estáveis mas, da minha parte, sem vontade de transar com ele. Não sei mais o que fazer, gosto dele, não quero me separar. Quando chega a noite, fico pensando em desculpas, mas é confortável apenas o abraçando, com muito carinho, mas sem desejo. A relação se tornou fraternal?
Me ajuda"


O COMPUTADOR DA SANDRA CONGELOU A IMAGEM, foi preciso “resetá-lo, ou seja, desligá-lo e ligá-lo novamente para colocá-lo em atividade… Foi assim que conseguiu enviar sua carta ao Jornal. Por algum motivo, continuou sentada, pensando na sua história, foi então que percebeu que, em apertada síntese, tinha saído de uma vida sem paz para entrar em outra, sem sexo… Reviu mentalmente a época de brigas, ciúmes e insegurança na sua antiga relação, porém, apesar disso, entre uma briga e outra, havia noites calmas, nas quais o sexo funcionava normalmente.”.
Com Ivan foi tudo diferente, muito carinho, gentilezas, diálogo e compreensão… Mas nada de sexo. O mérito do encontro para ambos foi terminar com um passado violento e desgastado, porém uma vez alcançado esse objetivo, surgiu um vazio, onde sobrava amizade e faltavam paixão e projetos. Ambos, prisioneiros de amores infelizes, uniram suas forças e fugiram satisfeitos com o resgate mútuo…
- E agora? Continuariam juntos numa vida fria, sem desejo? Ou poderão dar um “reset” na sua relação? Desligá-la para ligá-la novamente.
Empolgada, Sandra pensou que valeria a pena tentar. Conseguiram um resgate mútuo, porém para continuar era necessário criar um novo projeto, ser um casal como os outros, um homem e uma mulher, com desejos, fantasias, ciúmes e algumas discussões normais da vida de casal…
- “Será que uma “Brigada de Resgate” pode se transformar em uma relação plena de amor e desejo? Como fazer isso?”, pergunta-se Sandra.
Em primeiro lugar, precisava de uma boa conversa com Ivan, com sinceridade, abrir seu coração… Porém temia magoá-lo, ou pior, perdê-lo… Precisava compartilhar o problema, confiando em que juntos poderiam resolvê-lo, enfrentando um novo desafio. Fugir agora de uma vida congelada, cheia de paz, porém vazia de sexo.
Precisava de coragem para dar um “reset”, para recuperar vida e movimento. Foi então que pensou que Ivan, de alguma forma, sabia ou intuía que o sexo não estava funcionando bem na relação. Os homens percebem quando sua companheira faz sexo por obrigação, por isso não adiantava fingir e, se verdadeiramente entre eles existia confiança e carinho, Ivan aceitaria a ideia de recuperar a relação, ou terminá-la. Sandra entendeu que, como consequência das dolorosas experiências passadas, tinham medo de repeti-las e por isso se obrigaram a viver numa paz exagerada, evitando qualquer indício de agressividade, sem dúvida, uma missão impossível. Não existe um casal sem discussão, crise ou diferenças de opinião, principalmente as brigas sem violência são saudáveis e necessárias, permitem oxigenar a relação e se conhecerem melhor. Boas brigas geram boas conciliações… A receita é “resetar”, pensou Sandra, empolgada com as conclusões…
Se conseguissem afugentar os fantasmas do passado, poderiam recuperar o erotismo, fantasias e desejos. As relações politicamente corretas e “pasteurizadas” são entediantes, sem interesse, nem erotismo. Por isso Sandra compreendeu que precisava literalmente brigar pelo seu prazer. Não há dia sem noite, verão sem inverno, nem paz sem guerra. Depois de um novo “reset”, Sandra anotou na sua agenda: “Lembrar que para amar com sexo é preciso brigar… sem ódio”.