Coluna de domingo, 28 de junho de 2015

"RUBEN (43) CASADO HÁ 12 ANOS. Há 1 ano tenho um caso com Tania, uma colega de trabalho casada, tem 50 anos e não aparenta a idade, só tenho desejo por ela e fazemos sexo esporádico. Não é amor, é uma mulher que me satisfaz, química perfeita, seria bom q ela quisesse manter essa relação mas ela se apaixonou e fica cobrando atenção. Diz que sou frio pq não a envolvo nem estou aberto para falar de sentimentos. Meus sentimentos vem através do sexo, mas não é amor. Mas ela diz q isso é uma pedrada na sua autoestima, queria q eu compartilhasse suas inquietações. Queria que tivéssemos um romance, mas não gosto de romances. Não consigo parar de desejá-la. Ela me dá sexualmente tudo o q quero, mas não posso me envolver. Ela já terminou comigo, dizendo q não está sendo correspondida. Estou sendo perverso? Deveria me afastar para ela não sofrer mais? Ela quer q eu me apaixone, mas não é isso q sinto. Que mal tem em nos relacionar apenas pelo viés do sexo?
Ruben"

A PRIMEIRA COISA QUE ME OCORREU DEPOIS DE LER a carta do Ruben foi fazer um exercício que, às vezes, funciona: uma inversão imaginária dos protagonistas do conflito, neste caso, dentro do mesmo contexto de aventura entre colegas, imaginei o homem carente e apaixonado reclamando maior atenção e afeto de sua amante e ela, por sua vez, sentindo-se feliz com os encontros esporádicos e sem compromisso. O resultado deste exercício imaginário mostrou que, nas últimas décadas, encontrei poucos casos assim e, quando efetivamente ocorreram, era evidente que o binômio ‘homem apaixonado’ e ‘mulher erotizada’ era raro e contradizia os modelos clássicos. É evidente que a maioria dos homens prefere sexo e as mulheres querem amor, ou seja, nesta questão, o gênero é um fator de grande influência, onde predominam homens erotizados e mulheres românticas, deixando claro que, no contexto humano, não existem regras sem exceções. Mesmo assim, insistimos que para eles o sexo é um fim, e para elas, um meio para alcançar outros objetivos como respeito, reconhecimento social ou familiar, quando não, interesses puramente financeiros. De modo que, apesar do sucesso da revolução feminista, ainda persiste o conceito de que a mulher, embora compartilhe o mesmo prazer que seu amante, em algum momento poderá reclamar de ter sido ‘usada’ ou ‘aproveitada’ por seu parceiro. Partindo dessa premissa, estamos em melhores condições de abordar o conflito do Ruben. Acredito que no início, o caso foi simétrico e ambos se sentiram igualmente gratificados até que a situação se desequilibrou por causa da Tania e sua motivação mais provável seria a clássica “culpa” . Para ela, seria difícil manter uma mentira por muito tempo em troca de alguns momentos de prazer, e ela precisou de uma motivação mais nobre e consistente. Foi então que o ‘caso’ virou ‘paixão’. Para Ruben, encontros esporádicos não configuram traição ou infidelidade, são apenas bons momentos e só seriam traição se ele se apaixonasse. Sexo sem compromisso não ameaça seu casamento, ao passo que, para ela, é exatamente o contrário; traição é praticar o sexo puro e simples, sem amor, enquanto que para Ruben, amar é um crime, porque o amor é o que ele tem em casa. Essa equação esclarece o conflito, uma vez que, o sucesso de um é o fracasso do outro e é impossível harmonizar essas premissas. Este formato explica por que homens casados frequentam prostíbulos sem a menor culpa. Para eles, os sentimentos em casa e os corpos na rua transitam por canais diferentes e só se cruzam quando são acidentalmente flagrados. É assim que Tania precisa amar, para não se sentir uma qualquer e Ruben não pode mencionar a palavra ‘amor’ para não trair sua legítima mulher. Ele renega o amor para não ser infiel e ela expulsa o prazer para não se prostituir. Água e óleo não se misturam e a única saída, ao contrário, seria um novo encontro entre uma Tania mais masculina e liberal e um Ruben mais feminino, capaz de sentir paixão e assumir compromissos. Peço desculpas sinceras aos dois. Por enquanto, isso é tudo o que tenho a dizer.