POR
ENGANO, TOCAMOS A CAMPAINHA DO SEU APARTAMENTO.
Uma mulher atendeu a porta, vestida com elegância,
arrumada, parecia pronta para uma festa…
Novo engano, não era uma mulher, era
Tiago, de festa, aproveitando seu momento “mulher”.
Por quê ou para quem?... Para ninguém
e por nada, respondemos, apenas para seu próprio
deleite, pelo prazer de baixar a vista e ver
sua saia justa, meias transparentes, sapatos
delicados. Agora, diante do espelho da sala,
com um sorriso cúmplice, acerta levemente
o decote da sua blusa…
Nem homossexual, nem travesti, apenas transvestido
para representar seu próprio show. Define-se
como “cross-dresser” (“transvestista”),
atividade solitária que pratica desde
a infância… É claro que o
hábito não faz o monge, nem roupas
femininas de grife o transformarão em
uma mulher, mas no mundo real, as coisas são
exatamente como parecem e por isso Tiago, durante
algumas horas “é” a dama
elegante que abre a porta e, em outras, o jovem
viril, apaixonado pela sua nova namorada. É
outro exemplo da diversidade humana, sua história
nos surpreende e desconcerta, porém sua
prática solitária não ofende
nem machuca, apesar de que, por enquanto, dificilmente
ganhará a aprovação social
ou das suas namoradas, o que, de certo modo,
é compreensível.
Poucas mulheres são capazes de se casar
num triângulo amoroso de dois corpos…
Os especialistas explicam esta prática
como uma dissociação do aparelho
psíquico, uma corrente feminina da sua
sexualidade que se tornou precocemente independente
do resto e ganhou vida própria. Este
mesmo mecanismo, de uma forma light, é
bastante comum em todos nós: quando um
fumante consciente do perigo do cigarro e para
preservar seu prazer age “como se”
o vício fosse inofensivo, nos oferece
uma pequena amostra da mesma dissociação,
pois convive com duas realidades opostas: o
cigarro mata e, ao mesmo tempo, é inócuo.
Vivemos cheios de minicontradições
que se resolvem com dissociação,
alcoólatras, sedentários, dependentes
químicos, jogadores compulsivos, são
exemplos de pessoas que sabem – e ignoram
– realidades opostas, tais como Tiago,
que racionalmente sabe que é homem, porém,
em outras roupas, migra de aparência e
se sente mulher, como as crianças fantasiadas
de Batman acreditam sê-lo.
Nas mesmas condições, um psicótico
estaria convencido de ter se transformado em
mulher e um neurótico teria crises de
angústia, fobias ou outros sintomas.
O “cross dressing” exibe e resolve
a contradição, dividindo-a em
tempos masculinos, quando trabalha ou namora,
e femininos, quando se veste de mulher.
O “cross dressing” evita um conflito
psíquico, mas promove um conflito social,
já que precisa ser ocultado. A sociedade
não entende a questão e as namoradas
o abandonam. Tiago pede ajuda e nossa resposta
é lembrar-lhe que a sociedade evolui.
Assim como hoje respeita a homossexualidade,
é bem possível que em breve reconheça
o direito de praticar seus jogos, sem rejeição,
nem discriminação. Por enquanto,
precisa encontrar uma companheira compreensiva
e generosa, suficientemente inteligente para
saber que o hábito não faz o monge
e seu hábito de se transvestir não
afeta sua masculinidade. Nosso desejo é
que da próxima vez que tocarmos sua campainha,
nos abra a porta sua esposa, uma bela, e desta
vez, verdadeira, mulher.
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