COM MÃOS E BRAÇO MUSCULOSOS, Marco,
seu jovem professor, a corrige, estica seu pescoço,
relaxa suas costas, coloca pesos moderados.
Às vezes correm ao ar livre... O esforço
de Carol merece elogios do marido e amigos...
Os avanços são evidentes, a sensação
de energia e bem-estar que proporcionam os corpos
trabalhados criam, entre professor e aluna,
uma ponte sólida de afeto e confiança.
Diálogos e pequenas confissões
nas pausas instalam uma intimidade que, como
efeito colateral inevitável, erotiza
o espaço e assim organizam encontros
semanais clandestinos.
Aqui os caminhos se bifurcam. Para Carol, se
amam, para Marco, são amantes. A diferença
entre as duas palavras é quase imperceptível,
mas significativa. Carol precisa estar apaixonada
para liberar o sexo. Marco desfruta com sua
amante e por isso prolonga o mal entendido.
A cada encontro reafirmam suas posições,
ela escuta as manifestações entusiastas
de Marco durante o sexo, como prova da sua paixão
por ela e ele, por motivos óbvios, omite
corrigi-la.
O desmentido chega de outra maneira, quando
Marco, para surpresa geral, termina seu casamento
e Carol, apaixonada, interpreta isso como o
verdadeiro começo da sua história
de amor... Novo erro. A separação
não os une, pelo contrário, os
separa definitivamente.
Para Marco a clandestinidade perdeu o sentido,
já não precisa de amantes e a
partir da sua perspectiva, sem simetria não
tem jogo, por isso se retira, preservando apenas
sua condição de professor, gentil
e didático, porém apenas professor.
Carol nos pergunta o que aconteceu com a paixão
e nossa resposta é taxativa: não
aconteceu nada, porque nunca existiu. Nem todos
os amantes se amam, se desejam, se encantam,
se satisfazem, porém não necessariamente
se amam e, a outra má notícia
é que, desde o começo da história
ela sabia exatamente qual era a sua situação.
Seu erro, bastante grave sem dúvida,
foi sua necessidade de transformar desejo sexual
em amor. Poderia ter sido amante, mas preferiu
amar.
Na sua carta pergunta se Marco, se separando,
reprimiu sua paixão por ela. Não
sabemos o que aconteceu com Marco, mas é
evidente que foi ela quem reprimiu seu desejo
pelo seu professor e o transformou em paixão
para não contradizer sua educação
e princípios e assim escolheu o único
caminho que, sem eliminar completamente sua
culpa e sofrimento, lhe abriu a possibilidade
de ir para a cama com outro homem. Carol não
sofre, porque foi enganada por Marco, mas porque
enganou a si mesma utilizando o argumento da
paixão, único recurso disponível
para driblar seus princípios morais.
Não traiu seu marido com um amante, se
apaixonou por um homem e, como todos sabem,
as paixões são irrefutáveis
e estão fora das leis humanas. As más
mulheres têm amantes, as boas, paixões.
Sei que minhas palavras são duras e não
aliviam sua dor, mas estou convencido de que
dispor de uma visão realista da sua história
lhe permitirá resolvê-la corretamente.
Marco não a abandonou, porque nunca a
teve, sempre a desejou e certamente foi correspondido.
Em síntese, foram dois desejos, sobrou
uma paixão.
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