AGENDA NAS MÃOS, REPASSEI MEU DIA DE
CONSULTÓRIO. Concentrei-me nos pacientes
do sexo masculino, dois deles, homossexuais
assumidos e bem resolvidos na esfera afetiva
e profissional e outros três, francamente
heterossexuais. Os cinco, colocados numa câmara
de Gesell, visíveis através de
um espelho falso, não permitiriam a um
observador distinguir homos de heteros. Nada
na aparência ou no discurso os delataria
e, forçado a dar um palpite, certamente
erraria.
Um homem gay é diferente apenas porque
deseja e ama outros homens, mas em todo o resto
da sua aparência e personalidade pode
ser francamente masculino. Algum cuidado exagerado
em suas roupas, um corpo mais trabalhado poderiam
alertar, mas o comum é tal revelação
surpreender... Por isso a carta do Fábio
parece se responder por si só. Teoricamente
pode ser masculino e gay ao mesmo tempo. Minha
resposta poderia terminar aqui, mas é
evidente que o Fábio aponta para outra
questão, mais confusa e polêmica.
Alguns homossexuais se apresentam imitando
de forma caricata mulheres, modificam seus corpos
e roupas, usam adereços femininos e,
principalmente, falam e gesticulam como mulheres.
Não imitam mulheres “normais”,
mas aquelas que arrastam palavras e fazem gestos
caricatos, difíceis de encontrar no mundo
feminino real. Os próprios gays, mais
discretos rejeitam, quando não desprezam
estas figuras, os ridicularizam e se referem
a eles como “bichas” ou “veadinhos”,
mostrando desagrado e preconceito. Este é
um terreno confuso e Fábio nos oferece
a oportunidade de abrir a questão.
O homossexual se sente atraído por homens,
desejo que remete à infância. Fábio
percebeu isso aos 9 anos. Pai ausente e mãe
super-protetora, dentro do padrão clássico,
justificando a busca da figura paterna em parceiros
masculinos. Mesmo que não se interesse
por mulheres, um homossexual pode olhar para
outro homem com olhos de mulher. Alguns vão
mais longe na sua identificação
feminina, querem “ser” mulheres
e este desejo arrasta o resto da sua personalidade,
chegando num grau mais extremo, ao transvestismo.
No jogo de “ser” e “ter”,
o gay “é” homem e quer “ter”
um homem para amar. O travesti também,
a diferença é que quer “ser”
uma mulher dando lugar a infinitas combinações.
O que confunde é que nesse conjunto há
indivíduos que utilizam a homossexualidade
como veículo para outra vertente, mais
perigosa. Refiro-me ao masoquismo. Por isso
se expõem e se arriscam sem necessidade,
sofrem agressões físicas ou morais,
se colocando como vítimas nas suas relações
afetivas. Buscam castigos para satisfazer o
masoquismo. Alguns são mais masoquistas
do que homossexuais. Fábio escolheu “ser”
gay, tem horror a se feminilizar ou cair no
masoquismo, não quer ser um homem menor,
ameaçado, insignificante ou castrado.
Aceita amar homens, porém rejeita um
destino submisso e dependente.
“Ser” um homem e “ter”
um homem não é tarefa fácil,
o termo “gay” foi um avanço
pessoal e social, literalmente é uma
palavra feliz, sem juízos nem preconceitos,
pelo contrário, enfatiza a alegria de
viver, tempero indispensável para uma
existência plena. Em síntese, Fábio
pode ser gay e homem. Por que não, um
grande homem.
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