Coluna de domingo, 27 de julho de 2014

"TENHO ANDADO DISTRAÍDA, IMPACIENTE. Já não sei mais quem eu só. Não consigo dizer não e me submeto a uma relação fria, sem sentimento, com uma pessoa indiferente que já me disse que não tem sentimento algum por mim, que se gosto dele o problema é meu, sua única preocupação é onde vai gozar desta vez... Não entendo é porque eu faço isso, em casa eu tenho quem me ama, me deseja, me quer bem, cuida da família e do futuro, me satisfaz na cama (quase sempre). Filhos legais, e coloco tudo isso em risco por uma aventura que me magoa, me chateia me diminui, para mim não importa, estou sempre lá abanando o meu rabinho, esperando o próximo truque, a próxima recompensa. É um desejo desesperador, seguido de uma culpa irreparável com meu marido, Trai-lo com um cara casado, com monte de "amigas" Já me mandou fotos delas transando com ele... Sinto-me péssima pensando que qualquer uma pode dar o prazer que proporcionei, tanto faz eu ou qualquer uma, Me apaixonei, não por ele, por uma ilusão, por algo arrebatador, que me deixa nas nuvens... Tenho só 37 anos, 15 casada. Sou um monstro, Como posso amar meu marido e desejar outro homem?
Zélia"


- “O SENHOR ESTÁ PENSANDO O QUE? Sou uma mulher casada, com família, não sou uma qualquer...” Frase conhecida que, na carta de Zélia, exibe um curioso e contraditório contorno. Vamos ao relato. Por puro acaso, Zélia, casada, com filhos e histórico impecável, certo dia tropeçou com Pedro, também casado, sedutor, com merecida fama de caçador de mulheres. Os caminhos se cruzaram e ao primeiro olhar surgiu entre eles um secreto clima de cumplicidade. O caçador imediatamente farejou o cheiro falsamente virginal de uma fêmea no cio, que, estremecida, se viu de repente paralisada e presa numa armadilha bem montada.
Não é de fato prisioneira, talvez queira ser... Depois de uma tímida resistência, Zélia entra no jogo erótico, agora por sua própria vontade de seduzir... No relato paralelo declara amar e ser amada por seu marido, sexo satisfatório e família adorável. No entanto, infelizmente a plácida felicidade doméstica não a emociona, prefere o segundo cenário, no qual é “uma qualquer” disputando sua vez entre as várias mulheres de Pedro.
Em família tem nome próprio, identidade, sexo, amor, prestígio; como amante é relegada, usada, anônima... E ela prefere isso. Entre pura e puta, escolhe puta, rejeitando títulos e honrarias. Tem intenso prazer em se entregar aos caprichos e vontades do seu sequestrador. Faz isso fascinada, em transe hipnótico, esperando as migalhas de um homem com o qual jamais se casaria. Às vezes acredita amá-lo, mas sabe que não é verdade. Zélia nos oferece a rara oportunidade de presenciar uma parte do desejo feminino “in natura”, na sua mais pura expressão, onde desejo e sofrimento se parecem, por isso é denominado “masoquismo feminino”. Trata-se do grão de areia que na maioria das mulheres se transforma na pérola que defende relações bem estabelecidas. As “bem casadas” têm nome, as “qualquer”, como Zélia, querem sexo sem amor, anônimas e excitadas, escolhem ser “ninguém”.
Ela nos pede ajuda em voz baixa, sem convicção, talvez não queira ser socorrida, seu prazer é ser relegada, excitada pelo mau trato. Se Pedro a amasse como seu marido, não teria graça e seria fácil rejeitá-lo. Egoísmo e indiferença estimulam competição e desejos primitivos, os defeitos do Pedro viram sua maior atração. Zélia confunde gozo e sofrimento, Choro e orgasmo. Sofrer a excita e os caçadores se aproveitam para esvaziar o cofre feminino. Para Zélia não é amor, nem paixão, é desejo, na sua expressão mais crua. Assim como a gentileza encanta a alma feminina, o desprezo e indiferença, bem aplicados deflagram nela vícios e mórbidos prazeres masoquistas.
Zélia precisa recuperar autonomia, dispõe de apenas um recurso extremo: inverter o jogo, se afastar, ser indiferente, porque Pedro, apesar de disfarçar, é viciado, é seu dono e seu escravo, seu poder só é exercido quando Zélia obedece e, se recuperar o comando, quebrará o encanto, denunciando as carências do caçador. Isto abrirá a porta da saída. Então Pedro, patético, gritará, sem sucesso, suas ordens. Nessa hora, preocupado, tentará ser gentil e então estará perdido, porque para Zélia, os homens gentis que a amam são facilmente dispensáveis.