Coluna de domingo, 17 de maio de 2015

"MINHA ESTÓRIA ACREDITO QUE POSSA SER IGUAL A MTOS MORADORES EM CONDOMINIO POIS TER VIZINHO É UMA LOTERIA, UM PREMIO OU UM DESFALQUE.
MORAMOS PERTO DA PRAIA MAR BATENDO NA MINHA PORTA E SOL OU CHUVA ME ABENÇOANDO. CHEGAMOS A ESTE CONDOMINIO DE POUCOS MORADORES,
A PRIMEIRA REUNIAO DE CONDOMINIO QUERIA SUGERIR MODIFICAÇÕES PORÉM MEU VIZINHO DE PORTA, CARA CARRANCUDA E MULHER ME OLHANDO COM FUROR,
LEVEI UM TRANCO! CONVIDADA A SER SINDICA POR UM OUTRO MORADOR, FUI VETADAPOR PESSOAS CHEGADAS AO VIZINHO. TUDO COMEÇOU A FICAR MAIS TENSO COM O VIZINHO DE PORTA QUE NAO RESPONDEM UM BOM DIA, NAO ATENDEM CHAMADOS, ELE BRIGA POR TUDO. NAO FECHA A PORTA DA HALL DOS ELEVADAORES COLOCADA PARA SEPARACAO DA AREA DE SERVICO DA SOCIAL, EU FECHO ,ELE ABRE NUMA IRRITACAO CONSTANTE, NAO CONSIGO SAIR DA DANCA! GOSTARIA MTO PODER ACEITA-LO MAS A PORTA ABERTA NA PASSAGEM ME INCOMODA, E UM ABRIR E FECHAR CONSTANTE, TENTEI ME ANALISAR MAS A IRRITAÇÃO E MAIOR! OLHAR PARA ELES ME FAZ MAL. GOSTARIA IGNORA-LOS.
E PUDER ME TIRAR PARA OUTRA DANÇA EU VOU. OBRIGADA
ROSI"

FOI POR UM FELIX ACASO QUE O MARINHEIRO AVISTOU uma tênue coluna de fumaça sobre a pequena ilha do Pacífico e comunicou, de imediato, ao Capitão. Quando a lancha de apoio atracou na ilha, encontrou apenas um habitante, sobrevivente de um naufrágio ocorrido anos antes. Era um religioso judeu que, para ocupar seus dias solitários, construiu uma cabana, bem simples. O mais estranho, entretanto, era que ele construiu duas pequenas sinagogas em terrenos vizinhos. O capitão, intrigado, não conseguiu controlar sua curiosidade e perguntou: “Para que duas Sinagogas? Uma só bastaria”. Ao que o judeu respondeu, assinalando com o dedo: “Sim, sempre rezo nesta”. E, baixando a mão em um gesto de rejeição, disse: “Nesta outra, nunca piso”. Esta antiga piada de humor judaico contém, como toda expressão de humor, uma verdade sólida inconsciente. O náufrago precisou construir duas sinagogas, uma para rezar e a outra, para nunca entrar, seguindo a mesma lógica do Fla-Flu, onde o flamenguista precisa de um tricolor a sua altura, sem o qual seu clube perderia todo o sentido. Esta dinâmica ajuda a entender o ódio entre vizinhos; não basta ser bom, é preciso identificar o mal. Isso explica os racismos e as discriminações que adquirem contornos trágicos no mundo contemporâneo. Não existe Deus sem o Diabo, nem virtude sem pecado, e é neste sentido que, para algumas pessoas, o vizinho é o melhor lugar para depositar o que há de negativo nelas. Felizmente, não é sempre assim, mas o problema se agrava quando o vizinho, para defender-se deste ataque, cai na armadilha e responde como um verdadeiro inimigo. O ódio do meu vizinho me condena a odiá-lo e somente com enorme sabedoria conseguirei evitar o confronto. Como não ser o Flu que o Fla precisa, ou o autêntico Diabo de um Deus falso? Tarefa difícil, quase impossível, porque fugir do confronto é covardia e assumi-lo é burrice. A carta de Rosi expõe claramente o conflito. Quando chegaram ao condomínio, tudo era perfeito e, por um tempo, conservaram um equilíbrio saudável. Entretanto, os vizinhos não desistiram, transbordavam em hostilidade e, nessa hora, o único recurso para não se intoxicar com o próprio ódio é projetá-lo e nada melhor que um vizinho, sempre visível e disponível. Sem a Rosi e seu marido, a existência precária dessas pessoas seria muito pior. Para elas, “boa vizinhança” não é empatia ou colaboração quando falta açúcar ou gelo; sua necessidade é maior, precisam de adversários para ganhar ou perder a cruel batalha da porta do corredor ou a imperiosa questão da cor da parede do fundo. Rosi precisa entender que não é uma questão pessoal, o ódio era anterior à chegada deles ao apartamento; esta era a ‘outra’ Sinagoga, desocupada até eles chegarem. A solução é não serem do tipo covardes que fogem, nem burros que batem de frente. O ideal é tomar a terceira via, um desfiladeiro estreito de sabedoria que não cai na tentação de imitar seus algozes transformando-os em inimigos íntimos. Vale construir duas cabanas, uma sinagoga para rezar e a segunda, uma biblioteca, para ler.