Coluna de domingo, 25 de janeiro de 2015

"NAUFRAGO A DERIVA”
Bom dia pode me chamar devido ao anonimato de Cézar.
Estou com 51 anos, sou divorciado a 15 e daí que vem a minha baixa autoestima. Casei-me novo, com 21 anos, tinha um ótimo emprego, ganhava razoavelmente bem, e apesar de minha esposa na época ser linda e muito, bacana, eu era mulherengo. Ficamos casados 15 anos, depois de separado, aceitei bem viver sozinho. Sempre aberto esperando entrar em outra relação. O que acontece, nunca consigo ninguém, me tornei uma pessoa desinteressante, sou hétero, muitas mulheres me acham inteligente, sensível, um bom partido talvez, mais nunca decidem a meu favor. Será que ter feito e ainda fazer sexo com as profissionais do sexo, me deixou acomodado, inseguro ou sem a coragem necessária para ter uma nova relação duradoura. Isso me angustia muito. Me ajude."


SENTOU, PEDIU UM CAFÉ E TALVEZ, POR ESTAR CERCADO de gente apressada, que falava sem parar, seu crônico sentimento de solidão se tornou mais agudo... “Náufrago à deriva”, foi a frase com a qual iniciou sua carta para o Jornal, satisfeito com a precisão com que descrevia sua situação. Era, sem dúvida, um náufrago, apesar de não saber a data exata do naufrágio. A primeira imagem que veio à sua mente, a modo de resposta, foi seu fracassado casamento. Era um jovem com bastante talento e autoconfiança, porém imaturo ou talvez, prematuro emocionalmente… Nada tão original, nem diferente de qualquer outro jovem, inclusive era possível que sua história fosse parecida com a do homem gordo, sentado à sua direita. O início do naufrágio foi um casamento antecipado e uma separação que pretendia repará-lo, sem dúvida, um episódio traumático e, culpado por não ter sido o marido que sua mulher merecia. Impotente na época para nadar contra a corrente, continuou sua vida com fortes reservas de esperança, apostando que tudo se resolveria imediatamente....
Não foi isso o que aconteceu, porque a partir de então, nunca mais teve uma mulher própria, apelando para mulheres de aluguel, com uso parcial de seus corpos, preço combinado e períodos breves. Assim construiu uma sólida solidão, que continuava sem explicação.
Racionalmente, sabia que existiam outras mulheres disponíveis, bonitas, bacanas e tão carentes como ele, porém uma barreira se interpunha: sabia onde encontrá-las, porém não como abordá-las. Uma alternativa moderna e possível seria a Internet... Por que, então, não utilizá-la?
- Não, não!, respondeu imediatamente, em voz quase alta. Não servia simplesmente porque tinha vergonha de expor publicamente sua solidão. Não era um náufrago por acaso, era um náufrago programado e consciente, dono de uma intimidade secreta e clandestina, blindada a olhares indiscretos… Com as mulheres de programa era mais fácil, com elas o dinheiro fala e diz o necessário no silêncio mais absoluto. O dinheiro pergunta, responde e resolve, sem pronunciar nenhuma palavra... Já na vida real ou na internet, é preciso falar, ou ainda pior, escrever, com letras eternas seu patético discurso de carência e solidão.
Pediu um segundo café para cortar o círculo dos seus pensamentos e foi nesse momento que uma ideia, com luz própria, iluminou seu pensamento; concluiu que vivia dentro de um túnel, via sempre as mesmas pessoas, colegas de trabalho, porteiro do prédio, vizinhos com filhos que cresciam e partiam para o mundo, enquanto ele, viciado em naufrágios, permanecia estático, esperando que algo casual e espontâneo fosse capaz de modificar sua rotina. A razão secreta pela qual escreveu para o Jornal foi aproveitar o anonimato, é esse seu problema, não sua solução e precisava se livrar dele, imediatamente, porque caso existisse alguém disposto a amá-lo, não poderia encontrá-lo, náufrago perdido no imenso oceano humano de uma grande cidade. Precisava fazer o contrário, escrever bem claramente seu nome, endereço e telefone para ser facilmente localizado pelas equipes de resgate, receber os primeiros socorros, além de amizade, companhia e, quem sabe, alguma coisa parecida ao antiquado sentimento de amor.