Coluna de domingo,26 de julho de 2015


“MEU NOME É TIAGO SOU CASADO HÁ 20 ANOS com a Dominique e temos dois filhos.
Quando tínhamos 10 anos de casados, caiu de paraquedas na nossa vida um jovem de 17 anos dizendo ser meu filho. Fiz o exame de DNA e se confirmou, gerado antes de conhecer Dominique.
O problema é que ela não o aceita de forma alguma. Nem que eu pronuncie seu nome. Isso a tem atormentado desde então e ela faz com que tenhamos um conflito diário, 24 horas por dia. Dia após dia é um verdadeiro inferno desde a sua descoberta. Eu não pronuncio o seu nome dentro de casa, e sempre preservo o meu casamento.
Para ela soa como uma profunda traição só o fato de pensar nele.
A minha esposa, perdeu o seu pai quando ela tinha 2 anos de idade e sempre chorou a sua ausência.
O que devo fazer? Como proceder? "


QUANDO UM PODEROSO EMPRESÁRIO FOI PRESO por corrupção, os jornais e revistas acompanharam o escândalo. Provas irrefutáveis o acusavam – vídeos, recibos, depósitos em contas bancárias, etc. Por isso, a declaração do seu advogado pareceu muito estranha, ele simplesmente declarou que seu cliente era inocente e que jamais havia cometido qualquer ilegalidade. Tudo não passava de um mal-entendido, nada mais. Realidade de um lado, negação do outro; na verdade, não surpreende, pois essa é a função de um advogado: refutar, destruir vestígios do delito, negando, enfaticamente, a própria existência dos fatos. Por sua vez, Dominique, esposa de Tiago, age da mesma forma – nega, sistematicamente, a existência do jovem filho que para ela, não existe nem jamais existiu. Não é apenas uma recusa a conviver com ele ou incorporá-lo à família. É algo ainda maior – é negar sua existência. O advogado e Dominique assumem a pesada tarefa de recusar a realidade mesmo sabendo que a realidade não some discretamente, pelo contrário, ela reaparece, insiste, se repete, incansável até seu reconhecimento definitivo. Por isso, Dominique reagiu violentamente não apenas na presença do jovem, mas sempre que ele é mencionado em qualquer conversa. Será que, por ciúme, não aceita que Tiago tenha tido um relacionamento com outra mulher no passado? E assim, seu filho é a prova viva desse relacionamento, motivo pelo qual Dominique se propõe a mudar o passado. Se seu desejo se realizasse e o filho de Tiago se afastasse definitivamente, mesmo assim, sua existência seria irrefutável. Nós conseguimos entender e justificar as declarações do advogado defensor, entretanto, as motivações de Dominique continuam sendo um mistério. Um fato relevante, entretanto, é que ela perdeu o pai quando tinha dois anos, de modo que para ela, a paternidade é um tema delicado. Acabo de me lembrar de uma paciente que também ficou órfã na infância e, contra toda lógica, irritada, acusava o pai morto de tê-la abandonado. Será que Dominique compartilha dessa ideia? Se for o caso, uma solução seria provar que seu pai não lhe abandonou por vontade própria (de fato, sua morte não foi voluntária), mas o fez porque “alguém” o impediu, exatamente como ela impede Tiago de se aproximar do seu filho. Sei que é uma hipótese difícil de provar, mas se fosse correta, explicaria a radical proibição que pesa sobre Tiago que, embora ame seu filho, não pode se aproximar dele porque “alguém” o proíbe. E então percebemos que Dominique e o jovem têm, em comum, um pai ausente e impedido de manifestar seu amor, sustentando assim a fantasia infantil de Dominique. A tese que explica sua atitude tão inútil quanto arbitrária é que um pai jamais abandonaria seu filho e, se o faz, é simplesmente por uma força maior, porque “alguém”, a própria Dominique, o impede. O advogado muda a realidade para defender seu cliente, Dominique o faz para autorizar uma garota órfã a sonhar que seu pai, sempre ausente, a amou e se pudesse, estaria para sempre ao seu lado.