Coluna de domingo, 14 de dezembro de 2014

"WALTER, 28 ANOS, TRABALHO, ESTUDO E HÁ 3 ANOS namoro o Daniel (22) e sou seu primeiro namorado. Há uns 6 meses tenho desanimado da nossa relação, sem vontade de ligar, de estar junto e o sexo se tornou indiferente. Ele me procura, me cobra, e só transamos por iniciativa dele, não tem amigos, pouco relacionamento com a família e é extremamente inseguro. Tornei-me amigo, família, psicólogo e pai, hoje não o enxergo com desejo de namorado. Para piorar me apaixonei pelo namorado de um amigo, ficamos muito próximos e já trocamos carícias as escondidas. O desejo é recíproco, mas não conseguimos avançar nesse jogo, pois entendemos todos os riscos que corremos. Não tenho coragem de me separar temo que ele faça alguma besteira ou se afunde em um mar de sofrimento e me falta coragem de ficar sozinho. O que fazer?"


FOI UM COMENTÁRIO SIMPLES E SÁBIO na sobremesa de um grupo de velhos amigos, reunidos para despedir o ano. Debatia-se a crise do casal de um deles, autor da frase: “As relações têm apenas duas alternativas; crescem ou cansam...”, foi uma síntese notável, facilmente aplicável ao conflito do Walter. Três anos de convivência com Daniel, começo apaixonado, juras e planos que, aos poucos, foram invadidos por um silencioso processo de desgaste. Seu companheiro foi delegando funções que colocaram o Walter, segundo suas palavras, no lugar de “amigo, família, psicólogo e pai”.
Este método é infalível para “cansar” uma relação e paga alto preço por delegar ao outro a responsabilidade da existência. As pessoas se unem para receber e oferecer apoio em relacionamentos complementares e, se for possível, simétricos, que fracassam quando de um deles é exigido ser avalista global do outro, resultado de um processo sutil e demorado, no qual são delegadas funções e iniciativas.
- “Que filme você prefere?”
- “Onde serão nossas férias?”
- “ Me sito só, sem família”
- “Preciso muito de você”
- “Estou angustiado, deprimido, sonhei que você me abandonava...”
Método subliminar e progressivo que delega decisões e responsabilidades da vida cotidiana que sob o álibi do próprio medo e fragilidade, entrega ao parceiro o volante da relação, permanecendo na confortável posição de copiloto.
É neste modelo se perdem duas das quatro mãos com as quais se constrói uma relação, agora transformada em curiosa sociedade de um sócio só. Este é o conflito do Walter, a dependência exagerada de Daniel o deixa só, o sexo naufraga e o desejo o desloca desta vez sobre o namorado de um amigo. O que Walter procura é alguém diferente, não só de Daniel, mas de si mesmo, um desconhecido que livremente o desafie e lhe faça companhia nos dias e noites solitárias. Sua escolha pode ser inadequada e o novo amor não possuir todas essas virtudes, porém um Walter “cansado” não consegue fazer escolhas melhores.
Não sabemos se realmente vai acontecer e qual será o destino do novo casal, porém são altos os riscos de confundir solidão a dois com paixão a três, motivo pelo qual a prudência é recomendável. Daniel, pelo seu lado, precisa corrigir seu rumo imediatamente . A fragilidade nem sempre inspira amor, o habitual é que inspire pena, sentimento regressivo e infantil, que ameaça a continuidade da relação adulta.
Se for verdade que Walter não o abandona por medo, que desesperado, possa vir a atentar contra sua própria vida, é porque Daniel já abriu mão da sua responsabilidade existencial e para continuar vivo exige a presença e cuidados constantes do Walter...
Ninguém pode dar nem pedir este serviço, é urgente liberar Walter destes encargos e buscar ajuda profissional para entender, assumir e gastar sua existência sob sua própria direção, ser independente e sustentado sobre seus próprios pés, único recurso para ser novamente respeitado e valorizado, por si mesmo e eventualmente por este ou outro Walter, com quem puder crescer. Sem cansar.