Coluna de domingo, 14 de setembro de 2014

" ME CHAMO ANA E TENHO 28 E ESTOU casada a 4 anos com um homem maravilhoso chamado Roberto. Tenho muitos ciúmes dele pois ele é alto, bonito, másculo, e ainda fico admirando sua silhueta como se não o conhecesse. Além disso ele é um amor comigo, não tenho do que reclamar.
Tudo seria perfeito se eu não fosse péssima em matéria de libido, ele geralmente tem que insistir muito para que façamos sexo e às vezes ele não consegue me convencer. Devo confessar que fui abusada por um parente próximo desde uns seis anos de idade e só parou no fim da adolescência, talvez isso tenha influenciado, mas é uma coisa da qual não costumo me lembrar quando estou com meu marido, acho que superei. Confesso também que costumo ficar facilmente excitada com cenas de sexo, fotos de pênis eretos e até histórias picantes, chegando a me masturbar; então por que as carícias ou tentativas do meu marido não tem o mesmo efeito em mim? Fico muito envergonhada com essa situação e sofro, pois sei que ele merecia mais de mim. Tenho concerto?
"


A CARTA DA ANA É BREVE E SINCERA. Em poucas palavras coloca uma questão que a ameaça e intriga... É jovem e realmente apaixonada por Roberto, seu marido, a quem admira e deseja, tanto pelo seu corpo maravilhoso, como pelo seu excelente caráter. No entanto, Ana, por algum motivo alheio à sua vontade, se nega ou resiste às demandas sexuais do seu marido, o que não acontece quando as iniciativas partem dela... Para completar meu raciocínio, preciso descrever uma característica da libido humana, que a partir do nascimento, circula em duas direções opostas: uma ativa e outra passiva, como é facilmente identificável nos pares: voyeurismo-exibicionismo, ou sadismo-masoquismo, atitudes inversas nas quais o indivíduo é sujeito ativo ou objeto passivo do olhar, da agressão etc. Um bom equilíbrio destas posições colabora para uma vida mais saudável.
O ativo predomina no masculino e o passivo no feminino, equação que não deve ser levada muito a sério, porém reflete as diferenças anatômicas dos sexos e o próprio ato sexual assim exige. Atores famosos devido à porção sedutora da sua masculinidade e símbolos sexuais femininos, objeto de olhares constantes são protótipos facilmente identificáveis.
Estas reflexões teóricas poderão ser úteis na compreensão do problema da Ana. Sua história registra um prolongado abuso infantil e adolescente e mesmo que a Ana possa argumentar que não tem lembra disso na hora do sexo, é evidente que influenciou seriamente no seu problema atual, já que sua excitação, inclusive seu orgasmo, só ocorrem quando partem da sua própria iniciativa, quando ativamente “fabrica” as cenas como diretora da fantasia e avança com sinal verde quando ela promove e, na situação inversa, um sinal vermelho a freia toda vez que recebe, passivamente propostas do Roberto. Por isso concluímos que Ana não tolera ser desejada, ser objeto do desejo, como foi durante sua infância.
Defende-se de forma retroativa, rejeitando o Roberto, que, sem culpa nem motivo real, ficou preso à sua restrição. Seus avanços são tratados, inconscientemente e contrariando toda evidência objetiva, como novos “abusos”. Por esse motivo, o bloqueio do canal passivo do seu erotismo transita fácil e exclusivamente na sua forma ativa, quando é ela quem propõe e deseja. É possível que esta descrição lhe permita refletir sobre seu problema, já que, no seu próprio relato, quando acaba de formular sua pergunta, poucas linhas depois, acerta o motivo e origem do seu problema.
É evidente que uma terapia lhe daria mais e melhores argumentos para resolver seu conflito, porém dá a impressão de que Ana está perto de uma solução espontânea para o seu problema. A seu favor conta com a boa relação com seu marido e ampla coincidência dos seus traumas que, se conseguir elaborá-los, poderão acabar com o seu bloqueio. Pensamos e desejamos que seu conflito seja reversível, considerando que a feminilidade da Ana seja tão real e evidente quanto a masculinidade do Roberto. Sem dúvida, a combinação mais perfeita para um futuro feliz.