Coluna de domingo, 28 de setembro de 2014

" CHAMO-ME ZÉLIA, 30 ANOS E A 2 me apaixonei perdidamente por Elias. Terminamos outros relacionamentos e ficamos juntos. Após um ano ele se mostrou difícil, a relação desgastou. Depois de brigas e decepções, hoje estou desiludida com o que fora o amor da minha vida. Fiquei confusa sobre nós e, para piorar, tive duvidas sobre minha sexualidade. Nunca me envolvi com mulheres, só homens, mas tenho a impressão que, às vezes, me sinto atraída por mulheres. Continuo atraída por homens, inclusive Elias, mas estes pensamentos estão me torturando, me deixando em depressão. Não quero essa vida para mim, mas também não sei se quero continuar com Elias, mesmo o amando, quero casar e constituir uma família com um homem que ame, mas tenho medo de nunca acontecer e de esta ter sido a minha ultima chance. Será desilusão com os homens? Ou sou Bi e não sabia?
Zelia"


ZÉLIA É UMA MULHER INTENSA, SEU ENCONTRO com Elias foi uma explosão apaixonada, que ocupou o primeiro ano de relação, porém, aos poucos, Elias mostrou um lado escuro de brigas e desentendimentos inúteis. A paixão não se cristalizou, como esperado, em amor mais calmo e real, ao contrário, passado o entusiasmo inicial, se mostrou egoísta e irritado, frustrando Zélia na mesma medida e intensidade em que tudo começou.
Até aqui sua história é semelhante a muitas outras, paixões e desencantos que fazem parte da existência e infelizmente, Zélia sofreu isso na carne, porém, sua juventude lhe daria tempo suficiente para recuperar entusiasmos e projetos... Porém sua história tem um fator novo e surpreendente. Sua decepção parece se estender a todo o gênero masculino e agora, como fato inédito, algumas mulheres do seu meio lhe parecem atraentes e desejáveis. Estes desejos a surpreendem preocupam e colocam em risco toda a sua plataforma existencial. Conforme suas próprias palavras, é a primeira vez na sua vida que tem esta sensação e este é, sem dúvida, o motivo principal da sua carta, na qual, lucidamente se pergunta se é consequência da sua frustração com Elias, a quem ainda ama e deseja, ou se estaria no começo de uma abertura bissexual.
Nossa resposta não é fácil. Ambas as opções são possíveis e o tempo é o único juiz capaz de concluir um diagnóstico correto. Ainda assim, podemos colaborar com algumas reflexões. Na mulher, os desejos homossexuais podem aparecer claramente definidos na adolescência ou, às vezes, na infância, determinando uma escolha clara e definida. Mulheres assumidamente homossexuais relatam que depois de tímidas incursões heterossexuais se convenceram e optaram, felizes e sem conflito em relação às suas preferências.
Em outro extremo encontramos mulheres solidamente heterossexuais, como a Zélia, que por frustração ou simples encantamento, um certo dia atravessam a ponte e protagonizam uma história homossexual. Digo ponte, porque, passada esta experiência, algumas permanecem nesta opção e outras retomam suas vidas hetero, sem traumas maiores. É verdade que o mundo moderno colabora com uma tolerância maior para estas oscilações que seriam impensáveis em décadas passadas, porém, ainda assim, a questão da sexualidade é difícil e promove acaloradas discussões, algumas científicas e outras contaminadas por preconceitos culturais e religiosos, semelhantes aos que ameaçam a Zélia na atualidade.
Por isso me adianto em lhe informar que não há nada de grave ou irreversível no seu novo desejo. É óbvio que o mais importante, por enquanto, é resolver sua relação com o Elias, definir se passa por uma crise superável ou se a relação está definitivamente condenada. Esta é sua prioridade e em relação à bissexualidade, posso lhe assegurar que aos poucos, sem medo de cometer erros irreparáveis, poderá discriminar a verdadeira natureza do seu desejo. Se for apenas uma manifestação do seu desencanto, um novo amor o colocará em seu devido lugar. Caso este desejo insistir e invadir o campo da sua sexualidade, saberá como conviver com ele. Precisa entender que nem sempre desejamos o que queremos, nem queremos o que desejamos. É por isso, precisamente, que somos humanos.