Coluna de domingo, 29 de agosto de 2010

"TENHO 35 ANOS E RECENTEMENTE PASSEI POR uma situação inusitada. O meu professor de ginástica começou a dar em cima de mim, inicialmente não me importei, até que ficamos. Quando começamos éramos casados. Tivemos esse "affair" por cerca de oito meses, e ele me chamava para nos encontrarmos em local reservado, mas eu tinha receio de que fosse apenas sexo, e não acho legal uma relação focada nisso. Ele chegou a falar que não estava muito bem no casamento, e eu também. Ele é mais novo, tem 25 anos. Marco telefonava sempre, realmente demonstrava estar apaixonado.
Um dia ele falou que havia se separado, mas não disse em nenhum momento que foi devido ao nosso caso.
Começou a se distanciar, não ligava mais, sempre se esquivando, falou que estava muito atarefado com todas as mudanças.
Isso aconteceu há cerca de um mês, e deu para perceber que ele não deseja conversar mais, não liga mais, e não quero insistir, uma vez que ele que falou que me procuraria, não quero mendigar nada.
Entendo que ele não queira mais nada, mas as minhas principais dúvidas são: aonde foi parar toda aquela paixão? Por que acabou de forma tão repentina? E se ele realmente não me queria mais, por que não me dispensou? A liberdade o reprimiu?
Marco continua prestando muita atenção nas aulas, ficando apenas nisso.
Estou sofrendo devido à paixão que sinto por ele, mas também devido a todas essas dúvidas, que tiraram o meu sono, literalmente. Carol"

COM MÃOS E BRAÇO MUSCULOSOS, Marco, seu jovem professor, a corrige, estica seu pescoço, relaxa suas costas, coloca pesos moderados. Às vezes correm ao ar livre... O esforço de Carol merece elogios do marido e amigos... Os avanços são evidentes, a sensação de energia e bem-estar que proporcionam os corpos trabalhados criam, entre professor e aluna, uma ponte sólida de afeto e confiança. Diálogos e pequenas confissões nas pausas instalam uma intimidade que, como efeito colateral inevitável, erotiza o espaço e assim organizam encontros semanais clandestinos.

Aqui os caminhos se bifurcam. Para Carol, se amam, para Marco, são amantes. A diferença entre as duas palavras é quase imperceptível, mas significativa. Carol precisa estar apaixonada para liberar o sexo. Marco desfruta com sua amante e por isso prolonga o mal entendido. A cada encontro reafirmam suas posições, ela escuta as manifestações entusiastas de Marco durante o sexo, como prova da sua paixão por ela e ele, por motivos óbvios, omite corrigi-la.

O desmentido chega de outra maneira, quando Marco, para surpresa geral, termina seu casamento e Carol, apaixonada, interpreta isso como o verdadeiro começo da sua história de amor... Novo erro. A separação não os une, pelo contrário, os separa definitivamente.

Para Marco a clandestinidade perdeu o sentido, já não precisa de amantes e a partir da sua perspectiva, sem simetria não tem jogo, por isso se retira, preservando apenas sua condição de professor, gentil e didático, porém apenas professor.

Carol nos pergunta o que aconteceu com a paixão e nossa resposta é taxativa: não aconteceu nada, porque nunca existiu. Nem todos os amantes se amam, se desejam, se encantam, se satisfazem, porém não necessariamente se amam e, a outra má notícia é que, desde o começo da história ela sabia exatamente qual era a sua situação. Seu erro, bastante grave sem dúvida, foi sua necessidade de transformar desejo sexual em amor. Poderia ter sido amante, mas preferiu amar.

Na sua carta pergunta se Marco, se separando, reprimiu sua paixão por ela. Não sabemos o que aconteceu com Marco, mas é evidente que foi ela quem reprimiu seu desejo pelo seu professor e o transformou em paixão para não contradizer sua educação e princípios e assim escolheu o único caminho que, sem eliminar completamente sua culpa e sofrimento, lhe abriu a possibilidade de ir para a cama com outro homem. Carol não sofre, porque foi enganada por Marco, mas porque enganou a si mesma utilizando o argumento da paixão, único recurso disponível para driblar seus princípios morais. Não traiu seu marido com um amante, se apaixonou por um homem e, como todos sabem, as paixões são irrefutáveis e estão fora das leis humanas. As más mulheres têm amantes, as boas, paixões. Sei que minhas palavras são duras e não aliviam sua dor, mas estou convencido de que dispor de uma visão realista da sua história lhe permitirá resolvê-la corretamente. Marco não a abandonou, porque nunca a teve, sempre a desejou e certamente foi correspondido. Em síntese, foram dois desejos, sobrou uma paixão.