Coluna de domingo, 29 de março de 2015

"COMO TRABALHO EM PROJETO, O MEU TRABALHO É INSTÁVEL - sobretudo na condição de prestador de serviço. Fico nesta constante expectativa de perder o emprego a qualquer momento. Mas, por outro lado, isso não me estimula a fazer à noite um cursinho preparatório para Concurso.
Também tenho um carro há 17 anos, que requer cuidados e que me traz certa insegurança de ir e vir com ele, pois tenho medo dele enguiçar a qualquer momento. Então, tenho vontade de comprar outro carro, empreitada que é contida pela minha situação no trabalho.
Para ajudar essas e outras "guerras internas", depois do trabalho, geralmente, vou até o bar beber no máximo 3 cervejas. Mas, ao mesmo tempo, mesmo no bar, já me critico por estar ali; me cobro por não fazer um exercício físico.

Enfim, para uma mesma questão, crio confusões internas; fazer e não fazer alguma coisa, que me deprime, paralisa. Já fiz várias terapias, sem muitos resultados. O que fazer para decidir por um dos lados da "guerra" ou até identificar um novo "inimigo”?
Roberto"

DEPOIS DE LER A CARTA DE ROBERTO VÁRIAS VEZES, decidi quebrar a sequência cronológica das minhas respostas e antecipar sua publicação. O assunto exige certa urgência porque, embora descreva uma situação relativamente simples, há várias interpretações possíveis que precisam ser apresentadas. Roberto é um jovem profissionalmente desorientado; teme perder seu emprego, não consegue se preparar para novos trabalhos e, além disso, sofre com seu automóvel antigo e cansado. Poderíamos interpretar seu desânimo como sendo uma forma branda de depressão e com isso, o caso estaria encerrado. Entretanto, este não é o caso. Vamos ampliar nosso campo de visão e descrever nosso complexo cenário atual: nos últimos meses fomos bombardeados com más notícias sobre o clima, a economia e a política e outras que tiveram o efeito notável de paralisar as pessoas e levá-las a um ponto de impotência dramática, tanto física como mental, mas os problemas não param por aí. Eles se agravam ainda mais com outra novidade menos recente: a explosão tecnológica que, com o sólido pretexto de facilitar a vida no planeta, nos inunda com robôs e chips de todos os tamanhos, alguns incrivelmente pequenos, mínimos, que aproveitam suas dimensões minúsculas para infiltrar todos os espaços e que, sem pedir licença, carregamos em celulares, computadores, aviões, carros, até mesmo em bicicletas. O que Roberto não percebeu é que, aos poucos, todas essas “facilidades” vão ocupando espaços anteriormente pertencentes aos seres humanos que silenciosamente se retiram e se atrofiam por falta de movimento. Roberto precisa reagir rapidamente contra essa invasão silenciosa que, com enorme eficiência ameaça a atividade humana, transformando-a em desumana passividade. É bem provável que o emprego de Roberto esteja ameaçado porque, em algum laboratório, neste exato momento, existem técnicos desenvolvendo programas que permitirão realizar as mesmas tarefas de modo mais barato e eficiente, novidade que será comunicada ao seu Smartphone, por mensagem ou por uma sorridente voz metálica. Roberto, em perigo, precisa reagir antes que seja tarde demais. Não há mais tempo para esperar por soluções mágicas; cada minuto de estudo, de preparo físico, precisa ser aproveitado para não ser atropelado por nano chips, controles remotos ou agendas eletrônicas. Da mesma forma que as constantes más notícias paralisam a mente, entregar-se ao computador atrofia o corpo. É evidente que a guerra entre o mundo digital e o mundo humano foi declarada, e a carta de Roberto, um pedido tímido de socorro deve ser ampliado e transformado em grito estridente de socorro. Roberto precisa lutar por tudo isso, inclusive usar a própria tecnologia a seu favor, estudando pela internet, resgatando seu capital criativo porque a limitação das máquinas é que elas não sabem criar, apenas repetem e toda a criação é, além de divina, um patrimônio essencialmente humano. Roberto com seu velho carro e suas três cervejas diárias é outra vítima desta guerra desigual e, por isso, precisa estar atento e mudar e, se tudo der certo, se sentirá lúcido e forte, em vez de letárgico e impotente. Por enquanto, somos nós que desligamos os computadores. Não deixemos que eles nos desliguem.