Coluna de domingo, 12 de abril de 2015

"VOU FAZER 50 ANOS E 30 DE CASADA COM PABLO, casamento sem estabilidade financeira, mas que a vida ia acontecendo. Ai você se vê em um domingo mudo,onde nada é dito. Até que não aguento e questiono se está bom para ele. O que consegui ouvir foi: os incomodados que se mexam. E perguntei: ou será que se mudem? Porém ja passou da hora de mudar. O incomodo cresce a cada dia, a paciência que tira a minha paciência, o mesmo filme todos os dias, a comida, a barriga, o sexo sem tesão, a falta de cuidado, o relaxamento, o carro imundo, as dividas, a falta de dinheiro, a falta de elogios, os mosquitos, o jardim feio, o armário da cozinha, a pintura da casa, o meu corpo velho, o cabelo branco, os filhos que já não são meus, a saudade de meus pais que não voltam mais... vida sem cor e sem planos. Por outro lado tenho desejo de viver, dançar, me apaixonar, conhecer lugares e ser feliz.
Gabriela"

NÃO É NOVIDADE QUE UMA IMAGEM VALE MAIS QUE mil palavras. O que não sabíamos é que, às vezes, poucas palavras bem escolhidas, podem expressar mais que mil imagens. A carta da Gabriela cumpre esta condição uma vez que, com pulso firme e estilo “selfie”, nos apresenta um retrato nítido de sua vida atual. A eficácia do seu relato está no uso de recursos poéticos e com eles, as imagens contêm mais megapixels que as mais modernas câmeras fotográficas. Foram 30 anos de casamento ricamente descritos. Gabriela conseguiu retratar uma cena semelhante à de milhares de mulheres casadas: pouco dinheiro, paredes descascando, armários que não fecham, mosquitos, sexo sem tesão, carros mal lavados, saudades de pais e de filhos. Todas têm em comum um passado com três protagonistas que nunca existiram: princesas, príncipes e sapos. No modelo clássico, os sapos beijados por princesas se transformam imediatamente em príncipes esbeltos e prontos para um casamento real. Gabriela nos surpreende mais uma vez com uma nova inversão: os homens com quem se casa começam como príncipes até que, anos depois da lua de mel, começam a pular, se tornam verdes e emitem sons de batráquios. Pablo levou três décadas para conseguir isso; no começo eram jovens e felizes, tinham um futuro e muita esperança. E agora, adultos, os sonhos se esgotaram. Interrompo minhas reflexões para responder à Gabriela. Minha primeira providência é questionar a solidez de suas premissas: Pablo é, de fato, um sapo? Ou será que a própria Gabriela tem um pé no pântano? Por que nunca tomou a iniciativa de comprar uma lata de tinta e pintar as paredes, ou pegar uma chave de fenda para consertar o armário da cozinha ou pintar seus cabelos brancos de preto? Sua melhor estratégia foi esperar uma reação do Pablo? Aprendemos que os casamentos são construídos ou destruídos por seus dois protagonistas. Gabriela é apenas uma vítima? A falta de dinheiro é porque Pablo é incompetente ou é porque os dois são pouco produtivos? Os sapos deprimidos engordam, os jardins sem rega, secam. Será que Pablo também é a vítima de uma rotina sem projetos? A verdade é que quando os dois tinham vinte anos a alegria brotava naturalmente, espontaneamente, mas agora, aos cinquenta anos, é preciso convocá-la ou fabricá-la, exige iniciativas, flores, viagens e presentes. A falta de tesão, de pintura ou de dinheiro esconde e justifica a falta de humor, de graça ou criatividade - por acaso, nenhum destes tem custo financeiro. A carta de Gabriela, mais que uma queixa, é um testemunho valioso da vida de todas as pessoas que perderam palácios, sedas e joias pelo caminho, o que é normal na vida. Todos nós perdemos a juventude e a beleza, além da pintura nas paredes. Perder é um processo normal que faz parte da vida. O que faz a diferença é que algumas pessoas estão atentas para consertar, substituir ou recuperar aquilo que foi perdido. Todos nós sabemos que embaixo do cimento dos palácios luxuosos existem pântanos cheios de sapos. De ambos os sexos.