Coluna de domingo, 22 de janeiro de 2012

"SOU CROSSDRESSER, VISTO-ME COMO MULHER desde a infância.
eu custumava vestir-me com as roupas das minhas irmãs.
Hoje, tenho 29 anos, moro só, e em casa
estou sempre vestido com roupas femininas.
Meus relacionamentos com mulheres sempre acabaram quando eu confessava meu segredo.
Estou namorando uma mulher mais nova e estamos empolgados.
Fico na dúvida:
- Tentar deixar meu prazer mais secreto?
- Contar pra ela com o risco de nunca mais vê-la?
- Deixar o barco correr com o risco da namorada descobrir meu segredo?

Sei que com a experiêcnia que o sr. tem não vai me dar uma solução do tipo faça isso ou deixe de fazer isso, mas uma orientação.
Tiago"

POR ENGANO, TOCAMOS A CAMPAINHA DO SEU APARTAMENTO. Uma mulher atendeu a porta, vestida com elegância, arrumada, parecia pronta para uma festa… Novo engano, não era uma mulher, era Tiago, de festa, aproveitando seu momento “mulher”. Por quê ou para quem?... Para ninguém e por nada, respondemos, apenas para seu próprio deleite, pelo prazer de baixar a vista e ver sua saia justa, meias transparentes, sapatos delicados. Agora, diante do espelho da sala, com um sorriso cúmplice, acerta levemente o decote da sua blusa…
Nem homossexual, nem travesti, apenas transvestido para representar seu próprio show. Define-se como “cross-dresser” (“transvestista”), atividade solitária que pratica desde a infância… É claro que o hábito não faz o monge, nem roupas femininas de grife o transformarão em uma mulher, mas no mundo real, as coisas são exatamente como parecem e por isso Tiago, durante algumas horas “é” a dama elegante que abre a porta e, em outras, o jovem viril, apaixonado pela sua nova namorada. É outro exemplo da diversidade humana, sua história nos surpreende e desconcerta, porém sua prática solitária não ofende nem machuca, apesar de que, por enquanto, dificilmente ganhará a aprovação social ou das suas namoradas, o que, de certo modo, é compreensível.
Poucas mulheres são capazes de se casar num triângulo amoroso de dois corpos… Os especialistas explicam esta prática como uma dissociação do aparelho psíquico, uma corrente feminina da sua sexualidade que se tornou precocemente independente do resto e ganhou vida própria. Este mesmo mecanismo, de uma forma light, é bastante comum em todos nós: quando um fumante consciente do perigo do cigarro e para preservar seu prazer age “como se” o vício fosse inofensivo, nos oferece uma pequena amostra da mesma dissociação, pois convive com duas realidades opostas: o cigarro mata e, ao mesmo tempo, é inócuo.
Vivemos cheios de minicontradições que se resolvem com dissociação, alcoólatras, sedentários, dependentes químicos, jogadores compulsivos, são exemplos de pessoas que sabem – e ignoram – realidades opostas, tais como Tiago, que racionalmente sabe que é homem, porém, em outras roupas, migra de aparência e se sente mulher, como as crianças fantasiadas de Batman acreditam sê-lo.
Nas mesmas condições, um psicótico estaria convencido de ter se transformado em mulher e um neurótico teria crises de angústia, fobias ou outros sintomas. O “cross dressing” exibe e resolve a contradição, dividindo-a em tempos masculinos, quando trabalha ou namora, e femininos, quando se veste de mulher.
O “cross dressing” evita um conflito psíquico, mas promove um conflito social, já que precisa ser ocultado. A sociedade não entende a questão e as namoradas o abandonam. Tiago pede ajuda e nossa resposta é lembrar-lhe que a sociedade evolui. Assim como hoje respeita a homossexualidade, é bem possível que em breve reconheça o direito de praticar seus jogos, sem rejeição, nem discriminação. Por enquanto, precisa encontrar uma companheira compreensiva e generosa, suficientemente inteligente para saber que o hábito não faz o monge e seu hábito de se transvestir não afeta sua masculinidade. Nosso desejo é que da próxima vez que tocarmos sua campainha, nos abra a porta sua esposa, uma bela, e desta vez, verdadeira, mulher.