Coluna de domingo, 19 de outubro de 2014

" CHAMO-ME FRANCISO, TENHO 20 ANOS. Universitário, ótimo emprego e família que me dá suporte. Uma vida “quase perfeita".

Não sou feliz. Não consigo rir com tranquilidade, nem fazer novas amizades, e muito menos alavancar minha vida social.

Tudo começou com um "pé na bunda" de Andrea, no ano passado. Namoro de jovens: beijos, empolgação e nada de sexo. Dois anos desse regime não aguentei e fiquei com outra garota, não transamos, mas foi o suficiente para acabar com o namoro. Depois disso, cai em depressão profunda, emagreci, quase perdi a faculdade. Um neurologista me ajudou bastante, me indicando medicação. A maldita depressão sumiu.
Porém, não consigo seguir a vida! Abrir-me com outras pessoas, confiar em alguém. Estou "travado"! Convivo com uma jovem que tem afeição por mim, mas não levo a frente. Sou taxado de lerdo, fraco, gay. Tenho bom porte físico, mas não gosto de mim. Procurei na internet livros de autoajuda, sem resultado. "


A CARTA DE FRANCISCO APARECE COMO TIPICO EXEMPLO de “Depressão reativa”, ou seja, secundária a um episódio traumático. Foram dois anos de namoro com Andrea, abstinência forçada, um breve encontro com uma colega mais liberal que, por descuido ou confissão, foi descoberto, provocando o fim da relação. A consequência imediata, depressão profunda e psicofármacos… Estes são os fatos e percebo neste contexto que tenho escassa margem de manobra…
Felizmente a parte aguda da depressão passou, porém persiste uma enorme dificuldade de se relacionar, justamente agora que conheceu uma jovem interessante que, por sua vez, se mostrou interessada nele. Francisco trocou depressão por desânimo, insegurança e paralisia…
Revejo sua sequência, tudo parece confirmar que a ruptura com Andrea foi o motivo da sua desgraça, sem a qual sua vida seria normal… É precisamente esta certeza que chama a minha atenção. Ser abandonado é, sem dúvida, uma experiência triste, dolorosa, porém aos 20 anos, não é comum assumir a proporção de uma tragédia…
Foi então que lembrei da história de um paciente, de meia idade, que me consultou devido a um problema semelhante, só que era a terceira vez que, motivado por uma ruptura amorosa involuntária, entrava em grave depressão.
A terapia, bastante demorada, deixou claro que suas rupturas não eram simples acidentes de percurso. Em todas, suas mulheres foram poderosas e instáveis, além de terem em comum um elevado risco de abandoná-lo. Descobrimos, para nossa surpresa, que não ficava deprimido por ser deixado, mas justo ao contrário, programava ser deixado para viver uma depressão… Admito que esta leitura, em um primeiro momento, parecia um pouco inverossímil, porém se tornou mais compreensível quando detectamos um luto infantil, uma perda significativa que, na ocasião, não mereceu a devida importância.
Devia um luto a si mesmo e ser abandonado era seu melhor recurso para sofrer, pagando esta dívida. Não era vítima acidental de mulheres insensíveis, as escolhia para que atendessem a esse requisito, descartando outras, com perfil mais sólido e previsível. Este é minha modesta contribuição para o Francisco, reconhecendo que faltam elementos para confirmar esta hipótese, no entanto, na sua breve história, há mais frustrações do que prazeres.
Os dois anos de abstinência sexual seriam compreensíveis em jovens que, por ideologia ou religião, assim decidissem em comum acordo. Não foi o seu caso. Sua única infidelidade não foi consumada e agora, interessado em uma colega, não se atreve a abordá-la… Será que Francisco escolhe o sofrimento por causa das dívidas pendentes? Será que um dia terá, como todo jovem, direito ao amor e ao prazer? É evidente que, por enquanto será difícil, porém, pensar em um novo formato da sua história poderá ser de grande utilidade. Transformar causa em consequência modifica o quadro. É verdade que reformatar um problema não é resolvê-lo, porém pode ser o começo de uma nova e profunda reflexão. Confirmada esta hipótese, Francisco não seria a vítima do seu drama, mas seu involuntário autor. Em ambos os casos, haverá sofrimento, porém a vantagem de um autor é que, se assim preferir, tem a liberdade e condições de modificar o último capítulo da sua história.