Coluna de domingo, 28 de junho de 2009

"TENHO 22 ANOS DESDE PEQUENO SEMPRE FUI APEGADO a minha mãe, sendo que meu pai foi meio ausente, e eu sempre senti afinidade com a minha mãe.
Desde novo tinha minhas diferenças com meu pai, ele não era tão presente, mesmo morando dentro de casa, eu tinha um medo de minha mãe sumir, sem motivos.
Vi que tinha tendência a ser gay desde os 9 anos, e sempre fui muito humilhado na escola, ofendido, sempre repudiei esse lado, não aceitava, hoje aceito ser gay, mais não aceito ser notado como gay, ter trejeitos femininos isso me mata, quero ser um homem normal, aliás sou homem.
Vejo que tenho uma ausência da figura masculina, tanto é que sou até defensor das mulheres, é possível desenvolver um trabalho através da psicanálise, onde me de caminhos, para continuar sendo gay aceitando numa boa, mas sem esses trejeitos que me magoa e que não quero aceitar, pois perante a homens, me sinto menor, não me sinto como eles, pois não quero jamais continuar sendo afeminado, quero ser gay, mas um homem normal, respeito quem é, mas pra mim não dá, além de não ser o perfil esperado por mim,eu seria mais feliz, sem ter que enfrentar gracejos que incomodam...será que é possível? Fábio".

AGENDA NAS MÃOS, REPASSEI MEU DIA DE CONSULTÓRIO. Concentrei-me nos pacientes do sexo masculino, dois deles, homossexuais assumidos e bem resolvidos na esfera afetiva e profissional e outros três, francamente heterossexuais. Os cinco, colocados numa câmara de Gesell, visíveis através de um espelho falso, não permitiriam a um observador distinguir homos de heteros. Nada na aparência ou no discurso os delataria e, forçado a dar um palpite, certamente erraria.

Um homem gay é diferente apenas porque deseja e ama outros homens, mas em todo o resto da sua aparência e personalidade pode ser francamente masculino. Algum cuidado exagerado em suas roupas, um corpo mais trabalhado poderiam alertar, mas o comum é tal revelação surpreender... Por isso a carta do Fábio parece se responder por si só. Teoricamente pode ser masculino e gay ao mesmo tempo. Minha resposta poderia terminar aqui, mas é evidente que o Fábio aponta para outra questão, mais confusa e polêmica.

Alguns homossexuais se apresentam imitando de forma caricata mulheres, modificam seus corpos e roupas, usam adereços femininos e, principalmente, falam e gesticulam como mulheres. Não imitam mulheres “normais”, mas aquelas que arrastam palavras e fazem gestos caricatos, difíceis de encontrar no mundo feminino real. Os próprios gays, mais discretos rejeitam, quando não desprezam estas figuras, os ridicularizam e se referem a eles como “bichas” ou “veadinhos”, mostrando desagrado e preconceito. Este é um terreno confuso e Fábio nos oferece a oportunidade de abrir a questão.

O homossexual se sente atraído por homens, desejo que remete à infância. Fábio percebeu isso aos 9 anos. Pai ausente e mãe super-protetora, dentro do padrão clássico, justificando a busca da figura paterna em parceiros masculinos. Mesmo que não se interesse por mulheres, um homossexual pode olhar para outro homem com olhos de mulher. Alguns vão mais longe na sua identificação feminina, querem “ser” mulheres e este desejo arrasta o resto da sua personalidade, chegando num grau mais extremo, ao transvestismo.

No jogo de “ser” e “ter”, o gay “é” homem e quer “ter” um homem para amar. O travesti também, a diferença é que quer “ser” uma mulher dando lugar a infinitas combinações. O que confunde é que nesse conjunto há indivíduos que utilizam a homossexualidade como veículo para outra vertente, mais perigosa. Refiro-me ao masoquismo. Por isso se expõem e se arriscam sem necessidade, sofrem agressões físicas ou morais, se colocando como vítimas nas suas relações afetivas. Buscam castigos para satisfazer o masoquismo. Alguns são mais masoquistas do que homossexuais. Fábio escolheu “ser” gay, tem horror a se feminilizar ou cair no masoquismo, não quer ser um homem menor, ameaçado, insignificante ou castrado. Aceita amar homens, porém rejeita um destino submisso e dependente.

“Ser” um homem e “ter” um homem não é tarefa fácil, o termo “gay” foi um avanço pessoal e social, literalmente é uma palavra feliz, sem juízos nem preconceitos, pelo contrário, enfatiza a alegria de viver, tempero indispensável para uma existência plena. Em síntese, Fábio pode ser gay e homem. Por que não, um grande homem.