Coluna de domingo, 26 de outubro de 2014

"SOLANGE, 22 ANOS. Tive um relacionamento dos 15 a 19 anos. O amava muito, acreditava que era o homem da minha vida, mas terminamos, a 8 meses, por diferenças que sempre existiram. Sofri horrores no início, mas passou. O amor que sentia se tornou um grande carinho. Depois me relacionei com algumas pessoas, nada sério ou duradouro. Cheguei a pensar que estava pronta para um novo relacionamento, mas percebi que não e hoje estou solteira. Cobro-me por estar sozinha, várias pessoas que terminaram a menos tempo já estão felizes namorando, porém, apesar dessa cobrança, não gostaria de namorar agora... Quero aproveitar ao máximo a juventude, viver as experiências... Para depois me orgulhar do que vivi. Gosto de me apaixonar, mas sempre acho que com o tempo, a relação perde o encanto. Isso pode me impedir de um dia ter um relacionamento sério de novo? Demorar a achar um novo namorado é sinônimo de que tem algo errado comigo?

Solange"


A PERGUNTA DE SOLANGE É SIMPLES, porém levanta uma questão profunda e importante. Desde tenra idade escutamos, satisfeitos, a frase final da maioria das histórias infantis: “Casaram e foram felizes para sempre”. Poucos percebem que esta frase sugere, como complemento lógico, a ideia de que os que não casam seriam, para sempre, infelizes. Por isso a jovem Solange supõe que sua breve solteirice seria alguma forma de neurose…
Quando repetimos a fatídica frase, percebemos que a palavra “sempre”, sugere uma condição definitiva, contrária à essência transitória e frágil da condição humana. A soma de casamento, felicidade e eternidade, aplicadas durante séculos a mentes infantis colaborou a construção do modelo de uma vida amorosa difícil, na qual o casamento não é apenas uma opção, mas uma obrigação para escapar da perigosa solteirice, neurose moderna impregnada de incompetência e fracasso…
Interrompo minha reflexão para descrever outro quadro, de aparência semelhante, este sim, francamente neurótico, que poderia se confundir com as dúvidas de Solange. Refiro-me às “fobias ao amor”, como foi o caso de um jovem paciente que, sem experiências, nem desejos homossexuais, estava convencido de sua condição enquanto tal. Seu verdadeiro sintoma era medo, quase pânico ao sexo oposto que, uma vez superado, lhe permitiu namorar sem conflito… Não era livre para optar por casar ou permanecer solteiro, sua neurose bloqueava o acesso ao universo feminino preferindo por isso, ser homossexual. Não é o caso de Solange que, por própria conta, decidiu ficar sozinha por um tempo. As fobias nem sempre são tão evidentes, com alguma frequência se apresentam de forma indireta, com descuidos ou maus-tratos dos seus corpos, obesidade ou magreza por má alimentação, tóxicos como cigarro ou bebidas, roupas inadequadas etc., para se distanciar do outro sexo, eliminando todo vestígio de sedução. Exibem um cartaz luminoso que anuncia: “ Não me amo porque não quero ou não posso ser amado” com o medo como pano de fundo, denunciando que preferem expulsar possíveis pretendentes justamente para evitar serem expulsos por eles. Em alguns casos foi possível detectar um misto de timidez e arrogância, já que sem timidez procurariam contato com outras pessoas e sem arrogância cuidariam melhor da sua aparência… Não é o caso da Solange, que nas suas férias amorosas nos ofereceu a oportunidade de marcar a diferença entre a “boa” solidão daqueles que param por um tempo para pensar na vida e a outra solidão, do medo do amor, prisioneiros de um círculo que provoca o que teme, por isso não investem para não perder, porém perdem por não investir… Os homens e as mulheres mais sábios facilitam seu acesso ao amor, aproveitando ao máximo suas virtudes, corrigindo seus defeitos e entram no mercado amoroso assumindo que nele nem todos perdem, nem todos ganham… Por tudo isso, em caso de dúvidas, a pergunta a ser respondida é: “estou de férias amorosas, ou sofro de uma fobia?” “Por que não me arrisco?” “Por medo de perder?” Formular a resposta correta será um bom começo para ser feliz. Não para sempre, pelo menos por um bom tempo.